19 de novembro de 2010

Transparência

Eu sou lúcida na minha loucura, permanente na minha inconstância, irriquieta na minha comodidade. Pinto a realidade com alguns sonhos, enxerto sonhos em cenas reais. Choro lágrimas de rir e quando choro para valer não derramo uma lágrima.

Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz. Busco pelo prazer da paisagem e raramente pela alegre frustração da chegada. Quando me entrego, me atiro e quando recuo não volto. Mas não me leves a sério, sei que nada é definitivo. Nem eu ou o que penso que eu sou. Nem nós ou que a gente pensa que tem.

Prefiro as noites porque me nutrem na insônia, embora os dias me iluminem quando nasce o sol.

Quando é impossível, gozo. Quando é permitido, duvido.

Não bebo porque só me aceito sóbria. Não tomo café da manhã, não almoço, vivo de dieta e penso mais do que falo. E falo muito, geralmente no jantar. Nem sempre o que tu queres saber. Eu sei.

Há uma mulher em algum lugar em mim que usa caros perfumes, sedas importadas e brilho no olhar, quando se traveste em sedução.

Se perceberes qualquer tipo de constrangimento, não repares, eu não tenho pudores mas, não raro, sofro de timidez. E nota bem: não sou agressiva, mas defensiva. Impaciente onde tu vês ousadia. Falta de coragem onde tu pensas que é sensatez.

Mas mesmo assim, sempre surge um momento qualquer em que eu esqueço todos os conselhos e sigo por caminhos escuros. Estranhos desertos. E, ignorando todas as regras, todas as armadilhas desta vida urbana, desta violência cotidiana, se tu me assaltas, eu reajo.

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