10 de março de 2011

Carta

 Prezada Dona Emoção,

Bom dia.

Sou eu, sua colega de trabalho daqui de cima, a Razão.

Como você sabe, por conta de uma desilusão amorosa, estamos passando compulsoriamente por uma reestruturação. E, por isto, gostaria de acertar com você alguns quesitos para que possamos ter uma convivência pacífica durante esta empreitada.

Assim, peço encarecidamente que você não aperte meu coração.

Você recebeu um turbilhão de emoções novas, estranhas e contraditórias. E, passado o susto inicial, você mandou todas essas emoções para mim e a agora a minha tarefa é achar um lugar para cada uma delas.

Estou fazendo uma triagem com os sentimentos, arquivando alguns para uso posterior, destinando ao arquivo-morto aqueles que não nos servem mais e listando as providências cabíveis às sensações das quais não vamos conseguir nos desfazer.

É preciso achar um lugar para todo o amor que ficou sem destinatário, realocar o estoque de carinho, destinar a raiva para outras funções, dissolver as frustrações, jogar fora os sonhos construídos que agora são inúteis e só ocupam espaço.

Tudo isto leva tempo e garanto que estou trabalhando em turnos dobrados para dar conta do recado (e isto explica a dor de cabeça que temos sentido nos últimos dias). E, modéstias à parte, posso dizer que já alcancei resultados muito positivos, considerando tempo tão exíguo.

Porém, é impossível fazer tudo isto com o coração apertado. O cérebro não recebe sangue e, sem ele, minha central de comando fica sem oxigênio suficiente. Deste jeito, fica difícil cumprir o que me cabe.

Então, insisto: não aperte meu coração.

Peço também que não venha toda hora revirar os sentimentos já arquivados (especialmente aqueles destinados ao arquivo-morto). Isso implica grande perda de tempo e energia, o que criará dificuldades ao cumprimento de nossas metas. Conto com a sua compreensão.

De outro lado, sei que você deve estar um pouco ociosa e, de minha parte, prometo ler coisas bonitas, ver paisagens agradáveis, ouvir música animada e nos cercar de pessoas divertidas. Garanto também que cuidarei mais de nossa fachada, para que ela não revele a bagunça que está aqui dentro (afinal, explicações demandariam nosso tempo e atenção, e não queremos perder o foco do nosso trabalho).

Além disso, como estarei ocupada com o processamento e arquivamento deste turbilhão de sentimentos confusos, você ficará totalmente incumbida das decisões que precisarmos tomar. Sim, Dona Emoção, você terá absoluta liberdade para decidir exclusivamente com base em suas convicções (exceto, por óbvio, quanto aos motivos que ocasionaram a reestruturação).

E quando tudo passar, podemos conversar sobre as decisões tomadas e definir quais iremos incorporar à nossa vida. Podemos tomar um café para tratar deste assunto… isto, é claro, se o Sr. Estômago colaborar.

Aliás, aproveitando que a sua central de comando (o coração) fica próximo do Sr. Estômago, por favor, peça a ele colaborar conosco. Se ele continuar rejeitando tudo o que quisermos comer, nossa situação fica insustentável. Precisamos nos alimentar, para ter energia e conseguir dar conta de tudo. Para ajudá-lo, garanto que recomendarei aos setores responsáveis uma alimentação saudável e balanceada. E, quando tudo se acalmar, o Sr. Estômago estará livre para receber as borboletas, das quais ele tanto gosta.

Determinarei também, a quem couber, a retomada da prática de exercícios físicos regulares, que somada à alimentação adequada, impedirá o acúmulo de gordura em nossas veias e artérias, o que fará bem a mim e a você. Asseguro que vou conversar com o Sr. Fígado, para evitarmos mal entendidos, pois ele será mais exigido durante esta reestruturação e deverá colaborar conosco durante esta fase. Como recompensa, ele terá o apoio medicamentoso que for necessário e férias dobradas, quando passada esta turbulência.

Por fim, não posso deixar de dizer que, embora seja eu quem costuma determinar o que deve ser feito, tenho que admitir que sempre levo sua opinião em consideração. Ok, posso até não deixar transparecer, mas é apenas o meu jeito excessivamente racional. Mas acredite: eu jamais deixaria você no comando, se não estivesse certa de sua competência.

Sei que você fará sua parte e passaremos por esta reestruturação da melhor forma possível. Depois desta tarefa, acredito que estaremos mais unidas e poderemos trabalhar melhor.

Conto com sua ajuda e com seu empenho!

Um forte abraço,

Razão.


*** Li o texto no blog:http://www.donoctavio.com.br/?p=1828#more-1828. Identifiquei-me com tudo escrito, peço "emprestado" e envio essa carta a minha Emoção.





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