27 de setembro de 2011

Eu...etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
 Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
 Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
 De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
 Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
 Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais, Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência, Indispensabilidade,
 E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
 Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
 Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
 De sua humana, invencível condição.
 Agora sou anúncio Ora vulgar ora bizarro.
 Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente.)
 E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação. Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
 Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta Global no corpo que desiste
 De ser veste e sandália de uma essência
 Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
 Da vitrine me tiram, recolocam,
 Objeto pulsante mas objeto Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
 Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.


Carlos Drummond de Andrade

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