4 de setembro de 2011

Por dentro, sou outro . . .

você não pode ver, mas debaixo desta casca, meu miolo escurece. não pode ver, mas, por trás deste verde, firme, brilhante, as coisas são de outra cor. estão em outro estado. eu apodreço. é o negro, ainda pequeno, crescendo próximo ao caroço, que explica o forçar do riso, quando não vejo graça. o beijo, quando prefiro o cuspe. a vontade de estar do outro lado da rua, na calçada oposta e de cabeça baixa, quando me surpreendo com o encontro. é a mancha escura, crescendo a cada dia, perto das sementes, contaminando a polpa branca e suculenta, que explica as juras de pra sempre, quando sei que o prazo está vencido. que as coisas terminaram. são os pequenos bichos, ainda microscópicos, se multiplicando famintos e silenciosos, que explicam o concordar, quando gostaria de quebrar a sala, derrubar os quadros, os potes, os vasos. que explicam o silêncio, quando gostaria de mostrar a língua, o dedo, gritar. é essa mancha escura, minúscula, escondida no meu miolo, que, só por ser pequena, ainda me faz suportar esse ambiente. a repetição do trabalho. a burrice. a lerdeza. seu lado medíocre sobrepondo o restante. enquanto tudo ainda é pequeno, consigo manter esta casca verde, firme, brilhante. enquanto a mancha não se espalha por completo, câncer pela polpa virgem, ainda consigo o sorriso no lugar do palavrão. o silêncio no lugar do grito. o beijo no lugar do cuspe. o sim no lugar do não. por baixo desta casca, apodreço a cada minuto. aos poucos. você pode não ver, mas eu aviso: estou mudando a cada dia. por dentro, sou outro.

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