20 de setembro de 2012

Devolva-me


“O retrato que eu te dei, se ainda tens não sei...”
Retrato? Pois é. Hoje estou aqui não para falar sobre divisão de bens graúdos, como apartamentos, automóveis, quadros, esse angu-de-caroço que casais casadésimos passam quando se divorciam, e sim para falar das separações de namoro, aquelas em que cada um vive na sua casa, com suas coisas, nunca comprou nada em parceria, mas sabe como é, um dia ficou uma camiseta na casa de um, e um iPod na casa do outro, e um tênis na casa de um, e uma prancha na casa do outro, e uma máquina fotográfica na casa de um, e um perfume na casa do outro. Puf. O namoro acaba. E acaba mal, com aquela mágoa de cerrar mandíbulas. Telefones mudos, nenhum sinal de vida. E a tralha que restou, devolve-se?

Os manuais de boas-maneiras certamente já tocaram nesse assunto. Deve haver algumas regras práticas e posso imaginar quais sejam. Se o ex deixou na sua casa coisas de relativo valor, como aparelhos eletrônicos, equipamento esportivo, eletrodomésticos ou uma joia de família, noblesse oblige: reúna a muamba e deixe na portaria dele ou na sua, e mande um bilhetinho avisando que o pacote está à disposição. Você não quer encrenca com a polícia, quer?

Se forem coisas mais prosaicas, como um livro, um disco, um chinelo, um biquíni, uma carteirinha de clube, um boné, convém dar um tempo e esperar o dono se pronunciar a respeito, pra não parecer que você está louco pra se livrar de qualquer lembrança ou, pior, o outro achar que você está arranjando pretexto para se reaproximar. Seja qual for o caso, não jogue nada no lixo – ainda.

Quanto às miudezas, tipo escova de dente, passador de cabelo, resto de xampu, batom gasto, isqueiro de tabacaria e aquela cueca que já nem se adivinha a cor, jogue tudo no lixo – agora.
 
Pronto. Assunto encerrado?

Mais ou menos. Faltou desenvolver um pouquinho aquela parte que diz: “pra não parecer que você está louco para se livrar de qualquer lembrança”. Ora, delicadeza a essa altura? Você vai, sim, deixar na porta do infeliz até o cotonete usado que ele esqueceu na bancada do banheiro para demonstrar que você não quer nenhum vestígio da passagem dele pela sua vida, aquele vira-lata, cafajeste, sem-vergonha. Até o resto de sanduíche que ficou na geladeira você vai mandar para ele por um motoboy, para deixar bem claro que os farelos do desgraçado não merecem frequentar a sua lixeira e que você não estava brincando quando disse que queria vida nova – mesmo que ainda não esteja bem certa se conseguirá sobreviver sem aquele vira-lata, cafajeste, sem-vergonha.

E tem aquela outra parte que fala sobre “o outro achar que você está arranjando pretexto para se reaproximar”. Ora, mas se estivermos falando do amor da sua vida, como é que você vai fazer para aguentar o sumiço, a saudade, o silêncio? Que outra maneira de mostrar a ele que você cortou o cabelo e ficou deslumbrante? Como conferir se ele emagreceu e está com um ar de cachorro abandonado? Faça um delivery! Vim trazer pessoalmente o que você esqueceu lá em casa, viu que criatura meiga e gentil você está perdendo?

Decida-se em que time joga (o das que querem se livrar de qualquer lembrança ou o das que querem um pretexto para procurá-lo de novo), e daí sim, assunto encerrado."

MARTHA MEDEIROS (JORNAL ZERO HORA 23/08/09)
 
 

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